Para quem épastores e supervisores de igrejas na visão celular
Nesta semana um pastor me disse que ia cancelar a assinatura do aplicativo da igreja dele.
Não foi preço, não foi falta de recurso e não foi falta de suporte. Não iam trocar por outro.
Então por que parar de usar?
O motivo foi dito com clareza: os líderes não preenchiam o relatório.
Abriam o aplicativo uma vez por semana, pegavam a lição, e fechavam.
Se você lidera uma igreja na visão celular, é bem provável que já tenha vivido alguma versão disso.
Mas por que isso acontece?
Isso acontece quando ele percebe que preencher ou não preencher não muda nada. Não é sobre o aplicativo ser fácil ou difícil, e não é falta de vontade dele.
Para ter relatórios preenchidos com regularidade a igreja precisa fazer três coisas:
- Apresentar o propósitoExplique ao líder como a igreja usa aquela informação no cuidado pastoral.
- Dar retornoDê a ele informações úteis sobre a própria célula que talvez ele não tenha percebido ainda.
- Demonstrar cuidadoAntes de cobrar o relatório, se preocupe com a vida do líder.
Cobrar mais não resolve nenhuma das três.
O problema não é o aplicativo nem os líderes
Quando as presenças não são registradas como a igreja deseja, a primeira explicação que vem na cabeça costuma ser uma destas duas:
- O aplicativo é complicado demais.
- Os líderes não se adaptaram.
Mas a verdade é uma só! As duas explicações são insuficientes, e dá para entender por quê.
Repare que as duas têm uma coisa em comum: transferência de responsabilidade.
Numa, a culpa é da ferramenta. Na outra, é do líder.
E existe pesquisa suficiente para mostrar por que nenhuma das duas basta.
Em 1989, um pesquisador chamado Fred Davis publicou um estudo que virou a base de tudo que se escreveu depois sobre por que as pessoas usam ou não usam uma ferramenta de trabalho.
Ficou conhecido como TAM, sigla em inglês para Modelo de Aceitação de Tecnologia. Ele separou duas coisas que a gente costuma misturar.
- O quanto ela é fácil de usar.
- O quanto ela é útil para quem usa.
Acompanhando mais de cem funcionários de uma empresa grande, Davis encontrou uma relação forte entre o quanto a ferramenta era vista como útil e o quanto ela era usada.
A facilidade também importava, mas parte do efeito dela passava justamente pela utilidade: ela pesa enquanto torna a ferramenta mais útil, e sozinha quase não muda o uso.
A conclusão dele foi direta: nenhuma dose de facilidade compensa uma ferramenta que não faz algo útil para quem usa.
Aí a primeira explicação perde o pé. Nenhuma ferramenta passa a ser usada só por ser fácil, e nenhum grau de simplicidade resolve isso sozinho.
Trinta e quatro anos depois, dois pesquisadores foram estudar outra coisa: por que voluntários continuam ou param de servir numa organização.
Ouviram 323 pessoas.
O que mais previa a permanência dos voluntários era ter recebido treinamento adequado. E, em seguida, eles se sentirem acolhidos.
Deixar o processo fácil não previu nada. Nem a facilidade de entrar, nem a organização bem-feita seguraram alguém.
O paralelo na igreja não é o aplicativo. É a ideia de que basta reduzir o trabalho do líder para ele continuar.
E aqui vale um cuidado com a palavra treinamento, porque ela engana.
Não é treinamento de uso, o de ensinar como acessar ou onde clicar. É treinamento do propósito, da visão: a pessoa entender o que aquilo faz na vida de alguém.
Um bom aplicativo dispensa o treinamento de uso. Nenhum aplicativo dispensa o treinamento do propósito.
Este ponto é surpreendente. No meio das respostas abertas apareceu um pedido repetido por 13% deles: que a equipe soubesse o nome deles e os cumprimentasse.
Aí a segunda perde o pé. O voluntário não “se adapta” sozinho, nem deixa de se adaptar por conta própria. O que decide se ele permanece é como a organização age com ele.
Guarde o pedido dos voluntários, o de que alguém soubesse o nome deles. Ele volta daqui a pouco.
Duas pesquisas. Áreas diferentes. Três décadas de distância.
Trazendo para a nossa realidade, as duas pesquisas apontam para o mesmo lugar: não é a ferramenta nem o líder. É como a igreja atua.
A dinâmica da igreja vista de três ângulos diferentes
Sai da teoria e olha como isso acontece de verdade.
A célula é às 20h, na casa de alguém. Termina às 22h. A conversa continua na porta até quase 23h, porque uma das pessoas do grupo estava mal e ninguém quis sair antes.
Ele chega em casa depois das 23h, vai dormir mais tarde ainda e trabalha no dia seguinte.
No dia seguinte, no meio do expediente, ele lembra do relatório. Não abre. No outro dia, esquece.
Ele abre o painel e vê os pequenos grupos com relatório atrasado.
Ele também tem emprego, cuida de várias células. Não vai procurar por cada um deles naquele momento.
Então manda uma mensagem no grupo: “pessoal, não esqueçam de lançar o relatório.”
Um ou outro responde. Quando ele volta para conferir, ainda tem vários relatórios sem preencher.
Ele quer saber se a visão que Deus colocou em seu coração está sendo alcançada e, para isso, precisa saber quantos visitantes a igreja recebeu nas células, se as pessoas estão envolvidas com cursos e eventos, se estão sendo discipuladas.
Mas o relatório está errado, porque metade não lançou. Ele olha aquilo e conclui que o aplicativo não está funcionando.
Repare que ninguém fez nada de errado
O líder priorizou a pessoa que estava mal, e isso é exatamente o que a gente pede que ele faça.
O supervisor cuida de vários líderes, tem família e trabalho, e mandou o aviso que dava para mandar.
O pastor olhou o número que tinha na mão.
Cada um agiu de forma razoável. E o resultado é o relatório vazio.
É por isso que cobrar mais não resolve. O problema não está em nenhuma das três pessoas. Está no que acontece entre elas.
O que o líder percebe na dinâmica da sua igreja
Ele descobre para que serve o relatório pelo que a igreja faz quando ele não chega.
Repare nos dois últimos.
Parecem opostos, porém, são a mesma coisa. Num deles a relação inteira é o relatório. No outro não existe relação nenhuma, e o líder entrega no vácuo.
A mensagem no grupo, aquela do “pessoal, não esqueçam”, cai na terceira linha. Ela é para todo mundo, e não é para ninguém.
E aqui vem a parte incômoda.
Numa igreja onde ninguém olha o relatório, o líder que não preenche está certo.
Ele leu a situação e agiu conforme o que viu. Não é preguiça. É conclusão.
Numa empresa, a chefia decide e o funcionário usa determinada ferramenta porque faz parte do trabalho pelo qual ele é pago.
O líder de célula não é funcionário.
Procurei estudo sobre esse caso exato: uma tarefa que a organização pede, não paga e não tem como exigir. Não encontrei. A pesquisa conhece os dois extremos, e a igreja vive no meio.
É por isso que copiar a lógica de empresa não funciona aqui. Precisamos trazer os princípios para a realidade da comunidade cristã.
Seis perguntas para saber por que o relatório não chega
As duas pesquisas da seção anterior apontam para três pontos, e não para seis problemas soltos.
São as três do começo do texto: apresentar o propósito, dar retorno e demonstrar cuidado. O líder precisa saber:
- Que o relatório ajuda a igreja a cumprir uma missão.
- Que o tempo que ele gastou preenchendo fez a igreja perceber alguma coisa.
- Que a liderança o enxerga como pessoa, e não como preenchedor de formulário.
Duas perguntas para cada uma. Nenhuma depende de aplicativo, e dá para responder todas nesta semana.
Tente saber quantos líderes lançaram a reunião da semana passada sem ninguém cobrar.
O líder sabe para que serve?
Aviso no grupo não conta. Treinamento de uso do aplicativo também não. A pergunta é se alguém sentou e disse para que serve.
Liderança que não abre ensina, sem precisar falar, que aquilo não importa.
O líder recebe alguma coisa de volta?
Se existir só uma, ela é o diagnóstico. No caso do pastor que abriu este texto, era a lição da semana. Não é coincidência: a lição é a única coisa ali que dá alguma coisa ao líder. O resto pede.
Se a resposta for não, você tem líderes que entregam e nunca recebem. É exatamente assim que registro vira cobrança.
Alguém ali sabe quem ele é?
Procurar o líder, não o grupo. Se a resposta for “ninguém procura”, você já sabe o que ele concluiu.
Pergunta pelo líder ou pede o número? Essa é a mais importante das seis. E é a única que ninguém mede.
Como ler o resultado
Conte os “não” por medida.
Duas negativas na mesma medida é onde está o seu problema, e é por onde começar. Uma igreja com problema na medida 3 não resolve nada melhorando treinamento, e o contrário também vale.
Se der negativo nas três, comece pela 1. As outras duas dependem dela.
O que fazer nesta semana quando os líderes não lançam o relatório
Em 2017, o pastor Pedro Filho (in memoriam), do Ministério Semente de Fé, contou no nosso podcast como a igreja dele passou a receber os relatórios em dia, semana após semana.
Ele não trocou de ferramenta. E cobrou, sim, com todas as letras. O que ele não fez foi transformar a cobrança em ameaça:
“Quando cobro não é, vamos dizer, colocando a ferramenta como algo negativo, é colocando a ferramenta como algo necessário.”
Fez três coisas.
Amarrou o registro a um valor que o líder já queria para si.
Ele ensinava que manter aquela informação atualizada fazia parte da excelência do líder.
E resumia o que queria deles em duas expressões: não é “preencher para ficar livre”, é “preencher para se beneficiar”.
O relatório deixou de ser favor para a secretaria e virou prova do tipo de líder que ele é.
É exatamente o treinamento de propósito da seção anterior. Não é ensinar a clicar. É explicar para que serve.
Ele mesmo usava o aplicativo, e os líderes sabiam disso.
E fechava o ciclo toda semana. Segunda-feira, olhava quais células estavam desatualizadas e repassava aos líderes principais, para que atualizassem ou procurassem os seus.
Só que aqui está o detalhe que decide tudo. E é onde a maioria das igrejas erra ao copiar essa rotina.
Conferir toda segunda-feira, sozinho, é vigilância.
O que muda o significado não é a frequência da conferência. É a primeira frase de quem procura o líder depois.
Lembra do pedido dos voluntários? É isso.
O que separa acompanhamento de cobrança é o que acontece depois que alguém percebe.
Três coisas para fazer, uma por medida, e nenhuma depende de ferramenta:
Uma reunião de alinhamento com todos os líderes sobre o que a igreja faz com aquilo.
Não precisa ser relatório bonito. O líder só precisa perceber que o que ele anota do relatório é visto e importa. Pode ser mensagem de áudio.
Ao conversar, não comece pelos relatórios. Primeiro é vida na vida. Os números são consequência.
E uma quarta, que tira peso sem tirar responsabilidade: deixe o líder delegar o registro ao vice-líder ou a um secretário da célula quando ele não tiver tempo. Funciona com aplicativo, com planilha e com caderno.
Então o aplicativo não importa?
Importa, e seria desonesto da minha parte dizer o contrário logo agora.
Uma ferramenta difícil aumenta o atrito. Uma que não devolve informação nenhuma reduz o valor que o líder enxerga. E uma que não mostra ao supervisor quem ficou para trás deixa o problema crescer sem ninguém ver.
O que a pesquisa diz é outra coisa: nenhuma dessas funções substitui o que só a igreja faz.
Vou ser direto, porque este texto é publicado por quem vende o produto: ele não resolve nenhuma das três coisas da lista acima.
O que ele faz é tornar possível, sem trabalho manual, o retorno da quarta pergunta. E mostrar quem está sem lançar antes de virar problema, para que alguém procure o líder a tempo.
A igreja do Pedro Filho resolveu isso sem trocar uma linha da ferramenta.
A conversa continua sendo sua.
O relatório não é sobre o relatório
Todo líder que preenche está dizendo alguma coisa sobre gente.
Quem veio. Quem sumiu. Quem apareceu pela primeira vez.
Quando ninguém faz nada com isso, ele para de dizer.
E não é o dado que se perde. É a chance de alguém perceber, a tempo, que uma pessoa parou de aparecer.
Relatório sem retorno vira cobrança. O retorno transforma o trabalho do líder em cuidado.
Referências
(1989). Perceived Usefulness, Perceived Ease of Use, and User Acceptance of Information Technology. MIS Quarterly, 13(3), 319-340. DOI 10.2307/249008. acesso restrito
(2023). Unpacking the Volunteer Experience: The Influence of Volunteer Management on Retention and Promotion of the Organization. Journal of Public and Nonprofit Affairs, 9(3). Ler o estudo acesso aberto
(2017). Cultura de excelência na igreja em células. Podcast célula.in, setembro de 2017. Ouvir o episódio acesso aberto
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