O pedido de multiplicação chega pro supervisor de células numa terça à noite, com o planejamento que o líder preparou.

O supervisor analisa o planejamento: 13 pessoas, 7 ficam na célula mãe e 6 vão para a nova. Isso parece equilibrado. E ele aprova.

Só que faz 6 meses que ele não visita aquele pequeno grupo. Acompanha só os números.

4 meses depois, a célula mãe reúne 5 pessoas. A filha, 4, e de 15 em 15 dias, porque quem recebe a célula viaja muito. Ninguém fez nada de errado no papel. A conta batia.

Este artigo é sobre por que o planejamento da multiplicação fez sentido e as 2 células encolheram.

Não existe um número certo de pessoas para multiplicar uma célula. Toda fonte publicada dá um, e nenhum coincide, porque cada um é a fotografia da igreja que o definiu, não uma regra.

O que diz se a hora chegou é outra coisa: alguém pronto para liderar, alguém pronto para receber o grupo em casa, e um núcleo de pessoas que já carrega a visão da igreja.

Célula que multiplica só porque encheu costuma gerar 2 grupos fracos. E quem enxerga a diferença entre cheia e pronta é o supervisor, não a planilha.

Qual é o número certo para a multiplicação de células?

Não existe um número certo.

Quem define é a igreja. Ela se apoia no tamanho das casas, no jeito como forma seus líderes, na interpretação que o pastor tem de um texto bíblico etc.

Você provavelmente já procurou, e já viu que cada página dá um número diferente. O mais comum é 12, e o motivo é Jesus.

Só que a Bíblia não transforma isso em regra de tamanho: dos 12, 3 estavam mais perto de Cristo e os outros 9 em volta (Marcos 3.14 e 9.2, NVI).

E aí vale olhar de onde vem esse número.

A Lifeway, que publica pesquisa e material para igrejas nos Estados Unidos, recomenda de 8 a 16 pessoas, com 12 como ideal. Só que a base declarada não é pesquisa, é a experiência de quem escreveu.

Quem foi medir de verdade encontrou outra coisa.

Em 2014, Jim Egli e Wei Wang pesquisaram 1.140 líderes de pequenos grupos, em 47 igrejas dos Estados Unidos, atrás do que faz um grupo crescer e multiplicar.

Acharam 4 fatores, e nenhum deles é tamanho:

  1. A oração do líder.
  2. O foco em alcançar gente de fora.
  3. O cuidado entre os membros.
  4. O quanto o líder entrega responsabilidade a quem está no grupo.

E aqui eu preciso ser honesto: não é que tenham testado o tamanho e descartado. É que quem foi medir não foi atrás dele.

Quem recomenda aponta para o tamanho. Quem foi medir encontrou o líder.

A quantidade de pessoas não importa?

Importa. Só que ela não decide. O que a quantidade mexe é na relação entre as pessoas do grupo.

E é essa relação que diz se a multiplicação deixa 2 grupos fortes, ou 2 fracos.

Existe literatura científica sobre isso, e ela também chega a um número.

Robin Dunbar, o antropólogo de Oxford que descreveu os limites de relacionamento humano, e Roger Bretherton mostraram que a gente se organiza em camadas de mais ou menos 5, 15, 50 e 150 pessoas.

As 15 pessoas mais próximas normalmente são aquelas por quem a gente tem mais afeto. E é isso que explica um número que já corria entre pastores: nas igrejas grandes, o pequeno grupo raramente passa de 15 participantes.

Mas repare no que esse 15 mede. Ele diz com quantas pessoas alguém consegue manter vínculo. Não diz quando multiplicar o grupo, nem que multiplicar ali vai deixar 2 grupos saudáveis.

Ele explica por que a sala cheia parece cheia. Mas não diz o que fazer com ela.

Não existe quantidade mínima para multiplicar. Existe tendência: quanto mais gente preparada, mais perto a célula está da multiplicação.

O que acontece quando a célula multiplica só porque encheu?

Multiplicar baseando-se apenas na quantidade de pessoas geralmente traz mais problemas do que frutos.

Não estou sendo profeta do apocalipse. Sei que quem multiplica assim quase sempre está seguindo alguma recomendação. E recomendação baseada em quantidade não tem como avisar quando não é hora.

O problema é o que o número não vê.

Lembra da célula lá do começo do artigo? Eram 13 pessoas, e a multiplicação foi aprovada porque a conta parecia equilibrada.

Mas naquelas 13, 4 vinham toda semana e carregavam o grupo: chegavam antes, ligavam para quem sumia, preparavam o lanche. Outras 5 vinham quando dava. E 4 tinham chegado há menos de 2 meses.

A distribuição de 7 e 6 dividiu por contagem. Só que as 4 pessoas que carregavam o grupo não se dividem ao meio.

Ou ficam juntas, e um dos lados nasce sem base, ou se separam, e os 2 lados ficam pela metade.

Célula cheia não é garantia de multiplicação saudável.

A pergunta que sobra é se 2 pessoas conseguem ser a estrutura de uma célula. Nenhum relatório responde isso. Quem responde é o supervisor.

Em mais de 18 anos vivendo igreja em células, eu já vi centenas de células morrerem depois de uma multiplicação feita só na conta.

Morre a mãe, porque ficou sem estrutura. Morre a filha, porque nasceu sem força.

O que decide a multiplicação, se não é o número de pessoas?

Uma multiplicação saudável precisa de 3 coisas, e nenhuma delas é número.

Alguém para liderar

É a pessoa que vem sendo preparada junto ao líder de célula. E essa preparação muitas vezes não precisa ser formal. Só precisa ser intencional.

Alguém para receber

O anfitrião não é um endereço, é um compromisso. É a única pessoa que, quando falta, cancela a reunião.

Um núcleo com a visão

As 2 células precisam de pessoas que fazem acontecer, não só a nova. Problemas vão aparecer, e o que segura um pequeno grupo na dificuldade é a visão da igreja ardendo no coração dessas pessoas.

Repare no que não está na lista: quantidade.

Uma célula pode multiplicar gerando um grupo novo com 4 pessoas preparadas, que já são membros, já têm a visão e estão sedentas para liderar.

Outra célula, com 8 pessoas em que só 2 estão preparadas, pode enviar essas 2 para começarem um grupo do zero, e isso também é multiplicação.

O que não dá certo é dividir 13 ao meio e chamar de multiplicação.

E se a célula está cheia e não tem ninguém pronto?

Não multiplica, e não fecha o pequeno grupo. Trata o problema: a falta de alguém para liderar a célula que vai nascer da multiplicação.

A saída que funciona em muitas igrejas é a microcélula.

Microcélula é uma estratégia para despertar o potencial de quem já está na célula.

Na hora da ministração, o grupo se distribui pelos cômodos da casa. E quem conduz a lição, o compartilhamento e a oração não é o líder do grupo: é alguém em quem ele vê potencial para liderar uma célula nova.

Esse alguém, diante de 5 ou 6 pessoas com quem tem mais afinidade, pode se sentir mais à vontade do que diante de toda a célula. E depois de algumas semanas conduzindo, pode perceber que consegue.

Agora, se a microcélula fizer sentido para uma das células sob o seu cuidado, ela não começa sem passar por você.

Porque mudar o formato da reunião não é uma decisão que o líder toma sozinho. Ele precisa da sua cobertura espiritual.

Além da cobertura espiritual, essa célula vai precisar de você por perto.

Nas semanas seguintes, não basta visitar. Esteja nas reuniões. É ali que você vai ajudar o líder a escolher quem conduz cada microcélula, e a acompanhar quem for escolhido.

E o que vai te mostrar se está dando certo não é o desempenho de quem conduziu, é o que mudou no pequeno grupo.

Se os participantes continuam levando tudo ao líder da célula, quem conduziu a microcélula ainda não virou referência para eles.

Mas quando passam a levar a essa pessoa o que antes levavam ao líder, um problema, uma dúvida, a notícia de quem sumiu, a referência está começando a mudar.

Isso pode levar mais que 4 ou 6 semanas. E talvez não valha a pena multiplicar com alguém que o próprio grupo ainda não enxerga à frente.

E tudo isso é o contrário de mandar 6 pessoas para uma casa nova atrás de um líder que ainda não existe.

Este texto é publicado por quem vende o produto, então começo pelo que ele não faz: o célula.in não sabe se a célula está pronta. Isso continua dependendo de você ir lá.

O que ele faz é o planejamento da multiplicação. O líder monta a distribuição entre o grupo atual e o novo, marca quem lidera e quem é líder em treinamento de cada lado, e requisita a sua aprovação. Você recebe a proposta inteira, e não só o número.

E mostra, numa tela só, quantas pessoas estão com 2 ou mais faltas seguidas nas células sob o seu cuidado. É por aí que você escolhe qual célula visitar primeiro.

Na área de supervisão você também vê quem cada líder aponta como futuro anfitrião e como líder em treinamento, que são 2 das 3 coisas lá de cima.

Então, quando o próximo pedido de multiplicação chegar dos seus líderes, confira 3 coisas antes de aprovar.

Primeiro, vá ver com os seus olhos. Se tudo o que você sabe daquela célula veio de relatório, você ainda não sabe se ela está pronta.

Depois, sente com o líder. O planejamento já diz quem vai assumir o grupo novo; o que ele não diz é se o líder tem caminhado com essa pessoa.

E olhe a distribuição no planejamento da multiplicação, não se os números ficaram parecidos, mas se as células mãe e filha permanecem com um núcleo forte.

Se a resposta for não, a célula não está pronta. Está cheia. E o que se faz com célula cheia não é dividir, é preparar alguém para liderar.

O número diz que a célula cresceu. A visita diz se ela está pronta.

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Escrito por
Alexander Reis
Co-founder do célula.in
Publicado em

Referências

Egli, J., e Wang, W. (2014). Factors that Fuel Small Group Growth. Christian Education Journal, 11(1), 134 a 151. 1.140 líderes de pequenos grupos em 47 igrejas dos Estados Unidos. Tamanho do grupo não está entre as variáveis testadas. acesso restrito

Bretherton, R., e Dunbar, R. I. M. (2020). Dunbar's Number goes to Church. Archive for the Psychology of Religion, 42(1), 63 a 76. O 15 dos pequenos grupos é de Keller (2006), citado pelos autores; as camadas vêm de Hill e Dunbar (2003). Ler no repositório de Oxford acesso aberto

Braddy, K. (2024). 5 Benefits of Limiting Group Size. Lifeway Research. Recomenda de 8 a 16 pessoas, com 12 como ideal, declarando como base a experiência do autor e os 12 discípulos. Sem amostra e sem método. Ler o artigo acesso aberto

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