Para quem épastores, pastores de rede e supervisores de célula

Pastor, antes de qualquer coisa.

Multiplicação não é fruto de esforço humano. É graça. É presente de Deus para o seu ministério e para a vida de um líder.

Digo isso com muito carinho, porque se multiplicação fosse resultado de esforço, o caminho seria um só: trabalhar mais.

E você já trabalhou muito. Formou líderes, cobrou relatório, remarcou reunião, orou, jejuou. Usou todas as ferramentas que conhecia.

Talvez já esteja exausto, e até em dúvida se a visão celular é mesmo a melhor estratégia para alcançar novas vidas. E ainda assim o seu ministério não rompe a faixa de células em que se encontra há algum tempo.

Geralmente uma igreja em células não cresce porque a supervisão para de enxergar o que acontece dentro das células.

A chave para destravar o crescimento dos pequenos grupos é ter supervisores de células eficazes: que visitam todas as células que cuidam, presencialmente e com constância.

Por que o crescimento da igreja em células trava numa faixa?

Algo que percebi em mais de dezoito anos com a visão celular: se os supervisores ficassem atentos a detalhes pequenos, mudanças grandes aconteceriam.

Acredito que a igreja trava numa faixa de células quando a supervisão para de enxergar o que acontece dentro dos grupos. A cada ciclo surgem desafios diferentes. E os novos supervisores podem não entendê-los.

O primeiro detalhe que escapa é o número que chega até você. Vamos imaginar uma igreja que, em 2023, tinha 18 células.

Três anos · o mesmo total
Em 2023, 17 daqueles grupos multiplicaram. 2 fecharam no caminho, e a igreja quase dobrou. Foi um ano de festa, e a igreja saiu da faixa em que estava.
Em 2024, o pastor vê 33 células.
Em 2024, a igreja multiplicou 10 grupos. 5 fecharam. O ano passou como mais um ano de crescimento.
Em 2025, o pastor vê 38 células.
Em 2025, 1 único grupo multiplicou. A liderança abriu outros 6 por conta própria, com novos líderes, mas 10 fecharam.
Em 2026, o pastor vê 35 células.

Há três anos grupos multiplicam. Há três anos grupos novos nascem. E há três anos a igreja está estacionada.

O que chega ao pastor é o total. Fechamento é chato mostrar. Qualidade das reuniões ninguém vê. Como os líderes estão, você não fica sabendo. Então você não consegue responder por que a igreja não rompe.

Quem consegue ver que uma célula está estagnada?

Não é o relatório. Se você tem um, é porque sabe que ele é importante. Mas ele esconde o mais importante: como as pessoas estão.

Não é o líder. Ele participou de uma, duas, três células antes de liderar. Por mais que tenha concluído o treinamento de líderes, foi nas células que ele aprendeu o que é normal.

Se aquelas células já tinham algo fora do padrão, para ele aquilo é o normal. E ninguém desconfia do próprio normal.

É um princípio, e está na criação:

“Que a terra faça brotar vegetação [...] de acordo com a sua espécie” (Gênesis 1:11, NVI).

Célula que nasceu fora do padrão reproduz o padrão que conheceu.

É o supervisor quem deveria visitar a célula e caminhar com o líder.

É ele quem tem como ver, por dentro, o que o relatório não mostra. Desde que a visita dele seja uma visita de verdade, e não só a coleta do relatório.

Qual é o papel do supervisor de células na visão celular?

A supervisão de células tem dois papéis.

O primeiro é com o líder: cuidar dele, acompanhar, caminhar junto. É o papel mais falado na literatura, e não vai caber neste artigo. Fica para outro.

O segundo é com a célula, e é o que faz uma igreja romper a faixa de células: o supervisor é o guardião da visão. A visão que você tem do todo precisa chegar ao supervisor, e do supervisor ao líder.

Se para no meio do caminho, a célula pode virar outra coisa sem ninguém notar. Por isso o supervisor precisa visitar as células que cuida.

Todas, presencialmente, com constância. Sem visita, a célula vai se afastando da visão da igreja aos poucos. Não por má-fé do líder. Talvez ele não tenha absorvido a visão por completo, e por isso não consiga transmitir. Sem alguém para aparar as arestas, a visão pode se perder.

É assim que a igreja mantém o padrão das células a cada faixa nova. E manter o padrão exige saber o que olhar.

O que o supervisor de células deve observar na visita?

Se o supervisor é o guardião da visão, ele entra na reunião com uma pergunta só: o que acontece aqui está alinhado com a visão que a minha igreja tem para um pequeno grupo saudável? Não no roteiro. Na vida das pessoas.

Essa pergunta vale para cada fase da reunião. Recepção, louvor, lição, oração, lanche: são muitos detalhes, e eles cabem em três perguntas menores.

  1. Como é o acolhimento? Quem chega, visitante ou de casa, é recebido por todos ou só pelo líder. Ninguém fica de canto, nem a criança que veio com os pais e ainda não participa de nada.
  2. É um culto em miniatura ou uma reunião de célula? No culto, a pessoa chega, senta, canta, ouve o pastor, ora e vai embora. Na célula os elementos são os mesmos, louvor, Palavra, oração, mas todo mundo fala, pergunta, discorda. Se só o líder fala, e ninguém discorda dele, é culto de sala.
  3. A célula depende só do líder? A rotina da célula precisa ser compartilhada. Quando o líder é responsável por tudo, ele se sobrecarrega, e cedo ou tarde pensa em desistir. E onde ninguém faz nada além dele, ninguém aprende a liderar.

Quase nada disso aparece numa visita só. Visita anunciada, o líder arruma a casa, convoca quem anda faltando, e o supervisor costuma ver a melhor reunião do ano.

O supervisor só enxerga se a visão da igreja está viva na célula quando ele deixa de ser surpresa. Terceira visita, quarta, até virar alguém da casa. Não como fiscal. Como alguém que sabe o nome de quem está ali.

E o que ele viu numa visita só ganha sentido quando dá para comparar com a anterior.

Se a multiplicação de células é graça, por que a igreja precisa de supervisão?

Multiplicação é graça. Isso não mudou desde a primeira linha.

Mas a graça não dispensa o cuidado. O Deus que multiplica é o mesmo que, na criação, separa, ordena, dá nome, e então para para olhar: “E Deus viu que isso era bom” (Gênesis 1:10, NVI). Deus cuida. E cuidar começa por olhar de perto o que Ele confiou a você.

O que a igreja A faz pode não ser o que Deus quer que você faça no seu ministério. O que Ele tem para a sua igreja, Ele mostra a quem está olhando. Se a dúvida sobre a visão celular apareceu, talvez não seja a visão que falhou. Talvez seja o olhar que ficou longe.

E quem olha de perto por você é o supervisor. Como está a formação dos seus supervisores? Eles estão alinhados com a visão que Deus colocou no seu coração? Quando a visão do supervisor não é a do pastor, a igreja começa a se dividir por dentro. E casa dividida não subsiste (Marcos 3:25).

Então olhe. Reconheça o que não estava vendo, e há quanto tempo. Isso é arrependimento, e arrependimento em Cristo nunca é fim. É recomeço.

Comece pelos seus supervisores. Tenha a convicção de que a visão que Deus te deu está no coração de cada um deles. Não como esforço para produzir o que só Deus produz. Como cuidado com o lugar onde Ele age.

Vamos virar o jogo.

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Escrito por
Alexander Reis
Co-founder do célula.in
Publicado em