Na reunião de liderança, o pastor presidente ouve um líder de célula que começou a liderar há mais de um ano. “Nossa célula está boa, todo mundo unido, reuniões sempre cheias. Não quero mexer nisso agora.”

O pastor sorri, mas lembra dos alunos das primeiras turmas, que ele mesmo formou. Nenhum deles teria dito aquilo.

Para eles, ter um pequeno grupo cheio e unido nunca foi o objetivo. O grupo precisa ser assim pra dar conta de receber visitantes, porque quem chega precisa ser cuidado.

Naquela noite, ele abre um relatório.

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ÁLBUMINDICADORESMAPA DE CÉLULAS

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Existem 311 Células abaixo da rede.

Idade dos grupos

  • Até 3 meses7%
  • Até 6 meses12%
  • Até 9 meses7%
  • Até 1 ano7%
  • Até 1 ano e meio17%
  • Até 2 anos8%
  • Mais de 2 anos42%
Um dos relatórios de supervisão de células do célula.in. O relatório mostra a idade das células de uma rede de células. Quase metade dos grupos está na mesma casa há mais de 2 anos. O número mostra que tem coisa parada. Mas não diz onde.

Quase metade das células tem mais de 2 anos. A igreja continua multiplicando, só que bem menos do que antes.

O que incomoda o pastor não é a igreja multiplicar menos. É perceber que talvez a visão do líder esteja desalinhada com a visão celular da sua igreja.

Quase sempre, a igreja em células multiplica menos porque a visão celular chega diferente no líder novo. A visão nasce no pastor presidente e, a cada ciclo de multiplicação, passa por mais uma pessoa antes de chegar em quem assume uma célula.

O que se perde no caminho não fica vazio: o líder completa com a ideia de célula que ele já trazia do grupo onde participava.

Com quem nasce a visão celular de uma igreja em células?

Com uma pessoa! A visão celular nasce no coração do pastor presidente. É o direcionamento que Deus dá a ele sobre como conduzir aquela igreja.

Por isso ela não é um método que a igreja adota. É uma convicção, e é ela que faz cada pessoa, cada ministério e cada líder de célula caminhar na mesma direção e falar a mesma língua.

Lá no começo, foi essa visão que fez o pastor presidente pregar, domingo após domingo, que cada membro deixa de ser espectador de culto para ser formador de novos discípulos.

Pregou até a igreja inteira ter no coração que a visão não é uma estratégia de crescimento. É o cumprimento de um chamado de Jesus.

É daí que sai o que a igreja chama de célula saudável. Na igreja da cena, célula saudável é um grupo que forma novos discípulos, e não só um grupo unido. Guarde isso, porque é o que vai se perder no caminho.

A visão celular de cada igreja é fundamentada em convicção de fé, princípios bíblicos e discernimento sobre a vocação da igreja local.

Quando chegou a hora de formar os primeiros líderes de célula, quem deu as aulas foi o próprio pastor. A primeira turma de formação de líderes recebeu a visão celular em primeira mão.

E foi a mesma visão que fez esse pastor liderar uma célula nessa fase e cuidar pessoalmente de cada líder das outras. Pregava, dava as aulas e supervisionava. Tudo saía da mesma pessoa.

No começo, entre o pastor que transmitia a visão e quem liderava os pequenos grupos não havia ninguém.

Como surgem os intermediários da visão celular?

Em cada fase de crescimento da igreja em células aparece mais alguém entre o pastor presidente e o líder de célula.

A primeira fase aparece quando o pastor presidente já não dá conta de cuidar de todos os líderes. Surgem os supervisores de células, e é aí que a visão começa a ser transmitida por outras pessoas.

A fase seguinte vem quando há muitos supervisores, e alguns deles se tornam coordenadores. Os coordenadores acompanham e caminham junto dos supervisores.

Na maioria das igrejas, esses primeiros coordenadores foram os primeiros supervisores, e receberam a visão direto do pastor. E são eles que levantam novos supervisores, que quase sempre são líderes que já multiplicaram células algumas vezes.

Depois, é normal que o pastor presidente não consiga mais estar à frente da formação de novos líderes. Então ele delega o treinamento para uma equipe, e os novos líderes passam pelo curso recebendo o conteúdo de outras pessoas.

E antes de qualquer curso, o líder novo já participou de uma célula. Muito do que ele entende por célula, ele aprendeu ali, com o líder que cuidava dele.

Geralmente é nesta fase que a transmissão da visão celular começa a ter pequenas distorções.

O que muda na estrutura · o que muda na visão
O pastor forma a primeira turma.
O líder aprendeu com o pastor.
Os líderes da primeira turma viram supervisores.
O líder aprendeu com quem aprendeu com o pastor.
Os supervisores viram coordenadores, e novos supervisores são levantados.
O líder aprendeu com quem já não aprendeu com o pastor.
A formação vai para uma equipe.
O líder aprendeu com uma equipe, e com o líder da célula onde participava.

Uma célula multiplica e gera outra. Mais tarde essa outra multiplica e gera mais uma. Cada uma dessas vezes é um ciclo de multiplicação.

Na maior parte das igrejas em células, o ciclo dura mais ou menos um ano, que é o tempo de um grupo amadurecer.

São os ciclos de multiplicação que determinam as fases de crescimento. Por isso, nenhuma dessas fases aparece de uma vez. Cada uma precisa de alguns ciclos de multiplicação de células na igreja.

Repare que cada uma dessas mudanças é necessária. O pastor presidente não tem como continuar lado a lado de uma estrutura com 50, 100, 200 células, e a formação de novos líderes de célula precisa de mais professores.

Mas a realidade passa a ser outra: o líder que assume uma célula não recebeu toda a visão do pastor presidente, muitas vezes nem os novos supervisores. Os dois receberam de alguém que aprendeu de alguém, que recebeu do pastor a visão celular.

O que se perde cada vez que a visão é transmitida?

A cada ciclo de multiplicação, uma parte da visão que o pastor transmitiu começa a se perder no caminho. Mas o que se perde não fica vazio.

O líder que recebe completa a parte que faltou com a concepção de célula saudável que ele já trazia.

E essa concepção vem, principalmente, do grupo que ele frequentava. Mas esse grupo pode não ter sido uma célula saudável de acordo com a visão que o pastor presidente concebeu.

Então o que chega no líder não é uma versão fraca da visão do pastor presidente. É a ideia que o líder já tinha de célula boa.

Repare na abertura do artigo. O líder diz que a célula está boa, mas a igreja prega célula saudável. Parece a mesma coisa, mas pode não ser.

A perda de conteúdo a cada transmissão já foi medida, e o número é pior do que parece.

O que se perde

Em 2018, um grupo de pesquisadores montou o telefone sem fio em escala de laboratório. Eram histórias de 13 a 16 frases, com 20 a 24 detalhes dentro de cada uma, e cada história passou por 3 pessoas.

No terceiro contador sobravam 23,5% dos detalhes: 5 ou 6, dos vinte e tantos que existiam no começo. Isso com 3 pessoas na cadeia, não com 30.

O que entra no lugar

Uma pesquisa de 2010, da Universidade da Califórnia em Berkeley, respondeu essa parte.

Quando alguém reconta o que ouviu, e o próximo reconta de novo, o que sai no fim é aquilo que as pessoas da cadeia já esperavam encontrar. Cada uma preenche a parte que faltou com a ideia que já trazia na cabeça.

Agora pense na estrutura de supervisão de células da sua igreja. Da rede, passando pelas coordenações e pelas supervisões, seja qual for o nome de cada nível na sua igreja, até chegar nos líderes que vão assumir um grupo este ano.

Por quantas pessoas a visão celular vai ser transmitida até chegar nesses líderes novos?

Alguns ciclos de multiplicação depois, o que sobra não é a visão do pastor. É a expectativa de quem contou.

Vale dizer o limite dos dois estudos. Nenhum deles foi feito numa igreja. Foram feitos em laboratório, com histórias curtas e figuras simples.

Mesmo assim, o que os estudos medem é uma cadeia de transmissão, com gente contando a mesma coisa uma para a outra. E a estrutura de supervisão da sua igreja funciona assim.

A visão celular depende só do pastor presidente?

Não. Depende também das pessoas que o apoiam na igreja, sejam os pastores auxiliares, os professores, os coordenadores ou os supervisores de células.

Mas o pastor presidente não sai de cena. Ele continua alcançando, de forma intencional, as pessoas que transmitem a visão celular. Principalmente do púlpito, mas sem deixar de manter encontros regulares com sua equipe.

No começo, o pastor pregava a visão domingo após domingo. Hoje ele continua pregando, com frequência e intencionalidade.

É na pregação de domingo que o pastor presidente reafirma os fundamentos da visão celular. Aquilo que não pode se perder ao longo dos ciclos de multiplicação.

No começo, o pastor dava as aulas da primeira turma pessoalmente. Hoje as aulas são de uma equipe. Então a visão precisa estar inteira em quem ensina, e quem confere isso é ele.

No começo, o pastor cuidava de cada líder de célula. Hoje ele continua cuidando, mas principalmente de quem está ligado diretamente a ele pela estrutura da igreja.

E aqui está a parte que costuma se perder. Quando os primeiros supervisores foram levantados, o pastor cuidava deles e continuava perto dos líderes. Não sumia.

Esse padrão desce com a estrutura. O coordenador cuida dos supervisores e continua perto dos líderes. O supervisor cuida dos líderes e continua perto das células. Cada um cuida de quem está logo abaixo, e fica perto do nível seguinte.

Tem uma passagem bíblica que trata de uma visão que não chegou na geração seguinte.

“O povo serviu ao Senhor durante toda a vida de Josué e dos líderes que sobreviveram a Josué, os quais tinham visto todos os grandes feitos do Senhor em favor de Israel” (Juízes 2.7, NVI).

E o que veio depois:

“Depois que toda aquela geração foi reunida aos seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel” (Juízes 2.10, NVI).

Josué não falhou. Só que a geração seguinte não foi alcançada de perto por quem tinha visto.

O pastor presidente precisa ter segurança de que todos da sua equipe tenham a visão celular ardendo no coração.

Aqui vale dizer uma coisa que é difícil de encontrar por aí: a transição para a visão celular nunca termina.

Ela não é uma fase que a igreja atravessa e conclui. Líder novo chega todo ano. Gente de outra igreja vira membro e traz outra ideia de célula na bagagem.

A visão precisa continuar sendo transmitida o tempo todo. Só a estratégia de como fazer é que muda de igreja para igreja. O princípio não muda.

No início da implantação da visão celular, a visão chega inteira porque não há ninguém no meio. Depois de alguns ciclos de multiplicação, ela corre o risco de chegar diferente do que deveria.

Quem o pastor presidente alcança de perto são as pessoas que hoje fazem o trabalho que antes era dele. É por elas que a visão chega, ou deixa de chegar, em quem lidera.

A igreja multiplicar menos células é natural ou falha na transmissão da visão celular?

Pode ser as duas coisas, e a diferença entre elas muda o que você faz na segunda-feira. Parte do que acontece é de Deus e não está na sua mão.

A parte prática está na sua mão: a estrutura, a formação de líderes e supervisores, a transmissão da visão celular. Como na parábola dos talentos, Deus te entrega a visão e não espera que você a enterre.

Até aqui, este artigo respondeu por que a igreja em células multiplica menos depois de alguns anos. Falta a pergunta que só você pode responder: por que a sua igreja está multiplicando menos?

Volte ao relatório da cena. Quase metade das células tem mais de 2 anos. O número mostra que tem coisa parada, mas não diz se é tempo de Deus ou visão que não chegou. Essa parte não está no relatório.

Multiplicação é graça. É presente de Deus para o seu ministério e para a vida de um líder. Não é fruto de esforço humano. Já tratamos disso em Por que a sua igreja em células não cresce.

E se é graça, pode ser que Deus esteja segurando. Quando isso acontece, é por bondade: alguma coisa precisa ser acertada antes, na igreja ou na vida de quem lidera.

Nesse caso não há nada errado, e procurar culpa é procurar o que não existe.

Só que existe a outra metade: a parte prática, que está na mão do pastor presidente e da sua equipe de apoio.

Essa não se entrega a Deus sem antes ser tratada. Analise, busque entendimento, estude, encontre um sistema de relatórios feito para igreja em células. Enterrar o que foi confiado nunca foi sinal de fé.

Então a resposta honesta para a pergunta desta seção não começa numa conclusão. Começa numa conferência.

A visão está chegando clara em quem lidera? Os líderes entendem o que a sua igreja considera uma célula saudável? Eles estão liderando com propósito ou no modo automático?

Se as respostas forem sim, e mesmo assim a multiplicação estiver menor do que já foi, glória a Deus. É tempo dele, e tempo dele não se apressa.

Se você não souber responder, é por aí que se começa. E dá para descobrir numa conversa.

Como saber se a visão celular está sendo bem transmitida?

Numa conversa. Pergunte ao líder o que ele acha de uma situação real da célula dele, e compare a resposta com a visão celular da sua igreja. É na resposta que aparece como o líder pensa.

A situação está no relatório de célula. Pode ser poucos visitantes nos últimos meses, participantes faltando várias reuniões seguidas, um grupo cheio há muito tempo. Escolha uma que toque um valor inegociável da visão da sua igreja.

Se ele vê o mesmo que você e explica por que ainda não agiu, a visão chegou. Se ele olha a mesma situação e vê outra coisa, a visão que chegou foi outra.

E ele não está errado por isso: está sendo fiel ao que aprendeu.

A resposta não é sobre o líder. É sobre como a sua igreja está transmitindo a visão.

  1. Escolha alguns líderes que assumiram uma célula nos últimos 2 anos.
  2. Pergunte a cada um se a célula dele está perto de multiplicar, e por quê.
  3. Compare as respostas com a visão celular da sua igreja.

É a mesma pergunta que o líder da cena respondeu sem ninguém perguntar.

Multiplicação de células é graça. Mas você também não pode deixar a visão celular chegar quebrada em quem assume um papel de liderança na sua igreja.

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Escrito por
Alexander Reis
Co-founder do célula.in
Publicado em

Referências

Breithaupt, F., Li, B., Liddell, T. M., Schille-Hudson, E. B., e Whaley, S. (2018). Fact vs. Affect in the Telephone Game: All Levels of Surprise Are Retold With High Accuracy, Even Independently of Facts. Frontiers in Psychology, 9, 2210. 2.389 participantes, com histórias recontadas em cadeias de 3 pessoas. Só adultos americanos, narrativas curtas e recontagem imediata. Ler o estudo acesso aberto

Xu, J., e Griffiths, T. L. (2010). A rational analysis of the effects of memory biases on serial reproduction. Cognitive Psychology, 60(2), 107 a 126. Universidade da Califórnia em Berkeley. 4 experimentos de reprodução em série, com estímulos simples de uma dimensão. Ler o estudo acesso aberto

Este artigo é revisado quando algum dado ou prática citada muda. Quando isso acontecer, a data da revisão aparece ao lado da data de publicação.