Apresentação
O Renato é músico, líder de célula, coordenador de área e responsável pelo louvor jovem na Igreja Batista Central de Belo Horizonte, na unidade Luxemburgo.
Nesse episódio conversamos sobre as principais características de uma produção musical independente.
O Renato compartilhou com a gente parte da sua experiência na concepção e execução do projeto que originou o álbum Porta Estreita, lançado em 2016.
Resumo
Álbum independente é aquele em que o artista dirige e banca o próprio projeto: contrata o produtor, escolhe os músicos e dá a palavra final em cada arranjo. É o que descreve Renato, músico e responsável pelo louvor jovem na Igreja Batista Central de Belo Horizonte, ao contar a produção do álbum Porta Estreita nesta entrevista ao célula.in Podcast.
O caminho tem etapas fixas: pré-produção, com as canções gravadas em voz e violão no metrônomo e os arranjos aprovados um a um; gravação, normalmente instrumento por instrumento; e, por fim, mixagem e masterização.
O obstáculo principal é dinheiro. Cada etapa cobra a sua parte, e projeto que trava por falta de verba é comum, às vezes por anos. Contratar produtor e estúdio que façam captação, mixagem e masterização juntos reduz o custo.
Na divulgação, o CD físico deixou de ser exigência: o YouTube dá visibilidade e as plataformas hospedam, mas o retorno em streaming só aparece com volume alto de audição. No caso dele, quem pagou a conta foi a venda de CDs. O conselho final é ser ousado e pedir opinião sincera, porque a maior parte do que se compõe não se aproveita.
Conta um pouquinho para a gente como começou o seu envolvimento com música. Desde quando foi isso? Foi num ambiente de igreja?
Minha vida ministerial começou mais ou menos quando eu tinha uns 15 anos. Aprendi violão sozinho e comecei a tocar na igreja.
Na verdade, eu me envolvi com o canto um pouco mais tarde, foi por volta dos 19 anos, quando comecei a arriscar cantar e a compor algumas canções. O início mesmo como líder de louvor foi por volta dos 20 anos, na Igreja do Porto, em Porto Velho. Comecei a me envolver com o ministério lá e cheguei a compor algumas coisas.
Nesse meio tempo eu estava fazendo faculdade de direito. Tranquei a faculdade com um ano e meio para fazer a escola de treinamento e discipulado na Jocum, isso em 2003, 2004.
Depois eu fui para a Austrália, para a escola de liderança no Hillsong College, com foco em louvor e adoração. Foi muito legal, aquilo abriu muito a minha visão. Isso foi em 2009.
Depois disso, em 2011, eu recebi um convite para vir para Belo Horizonte, para trabalhar na Assembleia Legislativa como assessor de um deputado.
Esse convite para vir para Belo Horizonte foi um convite de trabalho?
Foi trabalho. Na verdade, eu tinha começado a namorar com a Paula em 2009, para ser mais exato, e ficamos um tempo namorando a distância. Aí veio esse convite e eu decidi me mudar para cá.
E logo no primeiro ano eles estavam procurando canções para gravar o primeiro álbum da Central, o CD Sem Paredes, e eu participei com duas canções. Posteriormente, em 2015, participei com duas canções no Majestoso. Em 2016 foi quando eu lancei o meu álbum solo, o primeiro trabalho.
Você passou um tempo na Austrália, no Hillsong College, e disse que aquilo abriu muito a sua visão sobre louvor e adoração. Quais foram as coisas mais impactantes? Qual foi o divisor de águas?
A gente tem lá as aulas, pessoas super talentosas, e as referências muito próximas, pessoas que durante muito tempo eu acompanhei, de quem eu era fã mesmo. Estavam todos ali, mas não foi isso que realmente me ensinou, que abriu a minha cabeça.
O interessante é que lá a gente aprende muito com as pessoas, com a convivência, com a vida da igreja, com o envolvimento no trabalho da igreja. Então a minha mente abriu, principalmente falando de igreja.
A Hillsong sempre foi uma igreja muito organizada, muito excelente em tudo que faz, sempre buscou o pioneirismo. Tem alguns passos de pioneirismo que eles dão a cada 20, 30 anos, que também são bem interessantes.
É uma igreja que quer estar sempre à frente, na vanguarda, e isso, querendo ou não, te leva a pensar um pouco fora da caixa. Isso é muito legal, porque eu consegui, não assim chegar a uma verdade absoluta, mas abrir a cabeça no sentido do que seria uma igreja saudável.
No Brasil, durante muito tempo, e eu me incluo nisso, a gente sempre foi muito "Deus proverá". Eles são um grande exemplo de organização e de excelência, e as nossas igrejas nem tanto. Achei isso muito interessante.
Mas, ao mesmo tempo, o brasileiro sempre foi muito espiritual, a gente busca muito o sobrenatural de Deus, vivendo o sobrenatural. Então o que a minha ida para lá me trouxe foi reforçar a importância da gestão, da organização institucional, do planejamento, e ao mesmo tempo a importância do espiritual, do sobrenatural de Deus na igreja. Caminhar dentro desses dois pilares, que eu acho que são essenciais para uma igreja saudável.
Em termos de adoração e louvor, a gente aprende muito a pensar fora da caixa, sai um pouco da nossa bolha, e isso acaba agregando muito ao nosso papel ministerial enquanto líderes de adoração.
Para quem não entende nada da área musical, o que seria esse pensar fora da bolha? Como é a visão brasileira que impera hoje nas igrejas, e como esse pensar fora da caixa pode ser aplicado no dia a dia?
Eu vejo assim: nós temos uma cultura um pouco conservadora, excessivamente conservadora. Pelo menos eu posso dizer por mim: durante muito tempo eu tive medo do novo, eu sempre me apoiava em algo que eu sabia que era seguro. E quando a gente está muito preso a um paradigma, a gente deixa de explorar novas possibilidades.
Quando você está num ambiente como o da Hillsong, em que eles estão o tempo todo querendo estar na vanguarda, sendo pioneiros, propondo coisas novas, criando coisas novas, isso desafia o seu paradigma e faz você pensar um pouco fora daquilo que é seguro demais para nós. Então isso estimula a nossa criatividade, é muito legal.
Para quem esteja querendo viver uma experiência dessas, é muito interessante, eu recomendo para qualquer pessoa que esteja envolvida com o ministério de louvor e adoração.
Como você está à frente do louvor jovem na Central Luxemburgo, parte dessa cultura que você absorveu tem sido implementada? Já tem tido algum impacto da sua influência nessa área?
Olha, eu quero acreditar que sim. Eu posso dizer que, desde quando eu cheguei, eu tenho conversado muito com a liderança. Eu não sou o pastor de louvor geral da igreja, mas eu sempre tive contato, muito relacionamento com a Beth, e mais recentemente o Johny veio para integrar o staff da igreja. Sempre conversei muito, sempre compartilhei das minhas experiências.
Eu creio que dei uma pequena contribuição em algumas alterações de gestão, de escala. Antigamente trabalhavam com banda fixa, e eu falei: "vamos mudar para escala".
Eu creio que comecei a influenciar um pouco mais de dois ou três anos para cá, quando a gente teve um pouco mais de liberdade para trabalhar uma identidade dentro do contexto jovem da Central Luxemburgo. E de certa forma a Luxemburgo é uma referência para as outras unidades. A intenção é que ela seja um referencial, então eu creio que, de certa forma, tem impactado um pouco a identidade de louvor na igreja.
Há um tempo dá para perceber uma uniformidade no louvor: não existe mais aquela sensação de que uma banda é boa e a outra não. O que mudou?
Eu acho que essa mudança de sistema tem grande influência nisso, porque antigamente a igreja trabalhava com banda fixa. E quando se trabalha com banda fixa, cada banda desenvolve uma identidade diferente, a tendência é essa. Porque as pessoas têm lá o seu relacionamento, o seu entrosamento. Por um lado isso é muito bom, o entrosamento da banda, mas a gente deixa de ter uma identidade unificada dentro da igreja, no ministério de louvor como um todo.
Então um dos objetivos ao fazer essa mudança para escala é esse: cada vez que você vai ministrar, você vai com uma pessoa diferente, seja um baixista, um guitarrista. Não existe uma banda fixa, as pessoas são escaladas separadamente.
E o que isso ocasiona: as pessoas têm que tirar o repertório universal da igreja, todo mundo tem acesso a ele, então todo mundo tira os mesmos arranjos, as mesmas músicas que estão disponíveis ali. Quando a gente quer trazer música nova, existe até uma certa burocracia, porque não pode ser em cima da hora, ela tem que ser aprovada.
Então a gente tem isso mais unificado, as pessoas estão sempre ministrando com pessoas diferentes, e isso gera unidade, identidade, repertório. A intenção é essa. É um processo bem vagaroso até para alcançar o ideal, mas ele funciona.
A sua trajetória como músico foi, em parte, concomitante à sua trajetória dentro da igreja. Teve algum momento em que esses dois caminhos divergiram? Você chegou a participar de alguma banda fora do contexto da igreja?
Cara, eu tive um período bem ruim na minha vida. Eu estava entrando na faculdade e passei um período afastado de Deus, afastado da igreja. Foi um período em que eu estava fragilizado, a minha família estava mudando de igreja, uma série de coisas. E aí meus amigos me chamaram e eu embarquei nessa. Fiquei um tempo fora, eu tinha uma banda de rock.
Não durou muito tempo, graças a Deus, mas eu sinto hoje, e de vez em quando eu prego sobre isso em alguns lugares, o peso de ter perdido tempo. Eu sempre penso na minha vida: poxa, eu creio que estou hoje dois anos atrasado de onde eu poderia estar. Foram dois anos afastado de Deus, e penso no que Deus poderia ter construído na minha vida com ele nesses dois anos perdidos.
E musicalmente, esse período afastado foi um desperdício, ou houve algum ganho de qualidade?
Cara, eu acho que, vendo hoje, não consegui aproveitar nada. Primeiro porque era banda cover, então a gente estava sempre preso a um padrão, a gente não criava, a gente só copiava. E segundo porque eu tocava baixo. Naquele tempo eu arrisquei no baixo, estava legal, mas para o que eu faço hoje não funcionou.
Só talvez de crítica, de produção musical, de habilidade musical, pode ser que eu tenha desenvolvido alguma coisa, não sei. Pode ter influenciado, mas nada relevante que eu possa dizer.
Hoje você se dedica em tempo integral à música?
Olha, eu não vivo de música, não. Eu sou advogado ainda, atuo como advogado. Atualmente não estou trabalhando mais na Assembleia, estou no Tribunal de Contas, como assessor de conselheiro. Então trabalho de segunda a sexta e no final de semana me dedico à igreja, aos compromissos da igreja.
Mas essa é uma vontade sua?
Eu tenho vontade. Vontade eu não diria de viver em tempo integral da música, mas eu tenho um coração de pastoreio, gostaria. Eu tenho gostado muito, estou coordenando uma área, comecei tem pouco tempo, mas tenho gostado.
Está no coração, mas eu estou esperando para ver o direcionamento de Deus, o que vai acontecer.
Em 2016 você lançou um álbum totalmente seu, o Porta Estreita. Como é esse processo de produção? Ele é completamente independente? Tem algum apoio por trás, financeiro ou de outra espécie?
Como eu falei para vocês, antes de me mudar para cá eu já compunha, já tinha algumas canções, eu cantava na igreja local. Mas depois que eu mudei para Belo Horizonte, eu praticamente dei um recomeço na minha vida.
Então eu não poderia chegar aqui já gravando algo que fosse ter alguma progressão, porque ninguém me conhecia, ninguém nunca tinha me visto direito. Como é que eu ia lançar algo num contexto em que ninguém me conhece? Então entreguei para Deus e falei: "Deus, no seu tempo, se for da tua vontade, e da tua forma".
Eu vim para cá em 2011 e, cinco anos depois, já tendo passado pelo Sem Paredes e pelo Majestoso, Deus colocou isso no meu coração. Eu voltei a compor já com a visão desse projeto, e as canções foram vindo: canções antigas que eu não tinha terminado, algumas ideias que eu terminei aqui. Escolhi a música Tremenda Graça para ser a canção de suporte do CD.
E a partir disso, depois de montar o repertório, a gente precisa ir atrás de um produtor. Eu não tive apoio de nenhuma gravadora, foi totalmente independente, nenhuma empresa me apoiou financeiramente. O único apoio financeiro foi dos meus pais, que sempre me incentivaram, sempre me apoiaram.
Então eu fui para o estúdio e a gente gravou as minhas músicas na voz e violão, com o metrônomo, o que já estabelece ali no primeiro momento o andamento da canção, que é o tempo dela.
Depois disso, o produtor, no caso o Márcio Melo, que hoje é diretor musical na Central, fica com as músicas e começa a trabalhar nos arranjos.
Arranjo é tudo aquilo que não é a sua voz?
Arranjo é todo o instrumental: bateria, baixo, guitarra, teclados, pianos, todo o acompanhamento. Então o produtor trabalha nos arranjos e a gente vai aprovando música por música. Isso é a pré-produção.
Depois que a gente aprova, aí vai para o estúdio para começar a gravar. Normalmente tem um processo que começa pela bateria, baixo, depois os demais instrumentos, guitarra, depois vocal. A gravação é sempre independente para cada um desses instrumentos.
Para um leigo: cada músico grava a sua parte de forma independente? Existe a gravação da música ao vivo, ou são sempre individuais?
Normalmente, quando você vai fazer uma produção de estúdio, começa a bateria, depois grava o baixo e depois grava o vocal.
Existe a opção também de gravar todos os instrumentos de uma vez. Isso pode ser feito ao vivo, numa apresentação no palco da igreja, ou então numa live, como o pessoal tem feito muito: dentro do estúdio, com a galera toda junta, faz um vídeo, grava lá.
Mas ainda assim a captação de cada instrumento é individual. Então, mesmo que esteja gravando todos de uma vez, está se captando cada um individualmente, para possibilitar edição e regravação, se for o caso.
No caso do Porta Estreita, foi dentro do estúdio, gravações individuais. Foram dois dias em que se gravou só as baterias, um dia em que se gravou só os baixos, e ia montando dessa forma.
Esse processo todo, a pré-produção e a gravação, dura quanto tempo?
Depende muito, depende de uma série de fatores. O processo criativo demora um pouquinho, e depende também da quantidade de faixas, um projeto com catorze, quinze faixas. Então são fatores que determinam quanto tempo vai demorar.
Outra coisa que influencia no tempo do projeto é a capacidade dos músicos que participam da gravação. Se são profissionais, que já estão acostumados a gravar, é diferente, porque existe uma diferença entre o músico de estúdio e o músico ao vivo. Realmente é uma pegada diferente.
Então, se são profissionais, grava muito rápido. Agora, quando você usa pessoas da igreja, que não estão acostumadas a gravar, existe um trabalho um pouco maior nesse sentido.
E o processo criativo, a concepção dos arranjos, demora um pouquinho por conta do processo de aprovação. Depois que eu passo a música na voz e violão e a gente define o andamento, ainda vai muita informação: ele vai perguntar "o que você está pensando?", e eu vou passar para ele mais ou menos o que eu estou pensando, passo algumas músicas, alguns artistas, talvez alguns projetos como referência.
É um intercâmbio de informações com o produtor, para ele saber o que você está querendo, qual é a identidade do projeto. Depois que você chega nisso, ele vai trabalhar naquela faixa específica. E depois que ele faz um primeiro conceito ele te passa, você aprova ou altera alguma coisa, e assim vai seguindo.
Os instrumentistas são praticamente todos selecionados pelo produtor, ou às vezes você já tem alguém em mente? Como funciona essa escolha?
Essa é uma das diferenças de um projeto independente para o dependente. Quando a pessoa é vinculada a uma produtora, ela fica refém de uma série de imposições, "você vai gravar com esse músico". No projeto independente a gente tem liberdade total para escolher quem vai gravar. Você contrata um produtor, mas você é o diretor do projeto.
Diretor no sentido de que as decisões finais, de aprovar de fato alguma coisa ou não, são minhas. Eu que aprovo: "essa aqui está legal, essa linha vamos fazer assim". Mas quem supervisiona a parte técnica, quem fala se a gravação ficou boa ou não, quem está lá dizendo se aquele trecho gravado ficou bom, aí é o produtor.
Num trabalho independente a gente tem essa liberdade, e tem a independência também. Aí depende da relação com a produtora, de todos esses fatores.
Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou na produção do Porta Estreita?
Eu acho que a maior dificuldade, normalmente em produções como essa, é a questão financeira, porque cada processo tem custo. A contratação do produtor é um custo, a contratação do estúdio é outro custo, tem a captação, tem a mixagem, tem a masterização.
É por isso que às vezes existem alguns projetos por aí que ficam parados um tempo: a pessoa começa e trava, fica sem grana para bancar o projeto e dá uma pausa. Eu já ouvi falar de projetos que levaram dois anos para ficar prontos.
No meu caso, eu contratei o Márcio para ser o produtor e fiz as gravações no Sarah Stúdio, em Contagem, junto com o Régis, que é o dono do estúdio e também é produtor musical. Eles trabalharam juntos desde a captação até a masterização, com o Márcio concentrado na parte de mixagem.
Então eu consegui juntar todas essas fases com pouca gente, porque tem gente que não faz as três coisas: captar, mixar e masterizar. Querendo ou não, isso reduz um pouco o custo. E graças a Deus eu não cheguei ao ponto de ter que parar o projeto.
Depois que termina a produção musical, começa a divulgação do trabalho, ou isso começa antes? Entra mais alguém nessa pequena equipe para atuar com a divulgação?
Quando eu estava em estúdio gravando, a gente já tem as redes sociais hoje, que divulgam em tempo real, então muita coisa eu divulgava ao longo da gravação, pelo Instagram.
Mas chega um certo momento em que eu tive que parar para fazer a arte do CD, para trabalhar a identidade visual e tudo mais. Aí já entra outro personagem na história, que seria o designer.
Ainda existe a questão física do CD? Nas produções independentes hoje, imprimir o CD ainda é importante?
A gente está passando por uma transição de mídia, assim como nós passamos pela transição do K7, do vinil, depois do VHS para o DVD e o Blu-ray. Hoje a gente está passando por uma transição da mídia física para a digital.
Hoje em dia a gente vê pessoas que conseguiram divulgar trabalhos e ter uma projeção grande sem um CD, trabalhando só com as mídias virtuais. O CD hoje deixou de ser uma exigência. Antigamente, se a pessoa não imprimisse um projeto, ela não era considerada um cara que tem um projeto. Agora, você não imprimir o CD não quer dizer que você não tem um projeto.
A distribuição por streaming faz parte do projeto de divulgação?
O que o pessoal tem feito hoje é usar muito o YouTube para divulgar o projeto, e o Spotify e as plataformas para hospedar o projeto. Então usa a imagem conjugada com o áudio, que é o que o YouTube proporciona, para fazer a divulgação.
A pessoa grava uma live, grava um clipe e joga no YouTube, aí dá visibilidade: visualizações, seguidores, inscritos no canal. E ali divulga: "olha, está tocando agora no Spotify".
E até mesmo no YouTube, como ele é uma rede, o artista pode avaliar como as pessoas estão gostando, se aquele projeto, aquela música está tendo aceitação, porque as pessoas começam a comentar embaixo, "poxa, coloca no Spotify para eu tocar". Então é bem interessante: o artista sente a repercussão daquele projeto, joga no YouTube e depois vai para as plataformas.
Voltando para o design da capa e a parte de divulgação: como funcionou no Porta Estreita?
Aí entra esse outro personagem, que seria uma agência de publicidade, um designer gráfico, para trabalhar a identidade visual do projeto.
No meu caso, a gente desenvolveu uma logomarca, a capa do CD, o encarte, as informações que vão compor a caixinha.
E também tem a possibilidade de contratar uma agência dessas para fazer divulgação paga nas redes sociais. No meu caso, eu não dependo disso, não era a minha pretensão gravar um CD para viver de vendas e de divulgação. A minha proposta sempre foi registrar aquilo que Deus estava me dando e realizar um sonho, um projeto pessoal, uma realização. Foi uma experiência muito legal.
Mas quem precisa disso obviamente precisa fazer um investimento maior em divulgação: gravar clipes, divulgar o clipe, vai passar por todo esse processo mais pesado. E tem o custo disso.
Para quem está procurando um retorno financeiro maior, o investimento não para na produção musical, porque aí você passa para a parte visual. Cada agência cobra um valor: a logomarca é um valor, a capa é outro valor. E se eu for contratar uma agência para fazer as postagens da minha rede social, tudo isso gera um valor.
E aí você entra também na parte de vídeo: "não, eu quero gravar um videoclipe". Gravar um videoclipe não é barato, é como uma gravação de áudio, porque depois você pega toda aquela gravação e vai tratar. Então tudo isso é muito caro, dependendo de quem você está contratando.
No meu caso, eu não fiz clipe, eu fiz lyric video para as músicas, aquele vídeo que a gente vê no YouTube com a letra da música. Foi esse o trabalho que eu fiz.
Financeiramente, é rentável esse processo de distribuição por streaming? Apesar de o CD estar caindo em desuso, ele é mais rentável do que o streaming?
A gente sempre fala que o streaming paga muito pouco, tem até uma guerrinha entre os cantores e as plataformas. Sobre a rentabilidade, a plataforma do YouTube é a que menos paga.
Agora, quem consegue realmente ter retorno dentro dessas plataformas de streaming, YouTube inclusive, são vídeos e músicas com muitas visualizações. Cada pessoa que ouve uma música no Spotify, por exemplo, o Spotify vai pagar uma fração de centavo para você. Então o cara consegue ter algum retorno se ele tem milhares, milhões de visualizações. Aí vale a pena.
Então tem que ser uma coisa muito boa, o material muito bom, muito bem divulgado, tem que ter muito investimento.
No seu caso, o Porta Estreita se pagou? Você conseguiu, pelo menos, o retorno dos custos que teve na produção e na divulgação?
Da minha parte sim, mas ele se pagou mais na venda de CDs. A venda ajudou bastante: acabou a primeira tiragem e parte da segunda, e deu para pagar os custos. Agora, a parte de streaming, YouTube, Spotify, não foi muito relevante.
E é porque, como eu disse, não era a minha intenção ganhar dinheiro, então o investimento não foi como o investimento de uma pessoa que precisa ganhar dinheiro com aquilo.
No YouTube, por exemplo, quando a pessoa vai lançar um vídeo, ela paga para impulsionar o vídeo, para dar um empurrão de visualizações inicial, uma projeção inicial. Começa com uma divulgação forte ali. E isso tudo é com dinheiro.
Existe um valor mínimo para impulsionar, mas não existe um teto?
Depende da bala na agulha. Se você tem alguém financiando, se tem alguma produtora por trás para te impulsionar, para te incluir nas playlists das plataformas, fazer contato, tudo isso influencia na projeção de um trabalho. Então são vários fatores que determinam se a pessoa vai ganhar ou não.
Tem algum novo projeto no forno? E, se tem, a ideia é seguir a linha do Porta Estreita?
Eu voltei a compor alguma coisa, estou gravando algumas ideias, trabalhando algumas músicas, e pretendo lançar em breve alguns singles. Quero entrar mais na pegada atual.
Não pretendo fazer a mesma coisa que eu fiz. Se eu for gravar agora, vou gravar um projeto passando por todo o processo de estúdio? Vou fazer uma live? Ainda não pensei nisso, qual vai ser o formato, mas a intenção é fazer uma gravação e jogar direto na plataforma, sem incluir mídia física. Então vamos ver, nesse segundo semestre alguma coisa, se Deus permitir, quero gravar pelo menos umas duas.
Tem alguma dica final para as pessoas que estão querendo colocar de pé um projeto musical?
Primeiro, seja ousado. Eu vejo que tem muita gente que tem vergonha do que faz. Às vezes a pessoa compõe e fala: "ah, eu tenho vergonha de mostrar isso, tenho vergonha de tocar isso na igreja". Aí eu sempre incentivo a pessoa: "poxa, mostra a sua composição".
O processo pode até ser às vezes um pouco ingrato, porque, chutando aqui, a cada 10 músicas talvez uma seja muito boa. Então, no processo de composição a gente trabalha muito e aproveita muito pouco, só aquilo que realmente tem algum potencial. Nunca são todas as músicas que a gente compõe: a gente vai fazer músicas muito boas, mas a maioria vai ser ruim, aí você pode ter certeza.
Minha dica é continuar. E outra coisa interessante: sempre pedir feedback das pessoas. Falar assim: "eu quero a sua opinião verdadeira, eu quero que você seja sincero a respeito disso que você está ouvindo". Porque tem muita gente que fala que está legal quando não está. Eu sou muito a favor de feedback, porque ele faz a gente crescer muito.
Então procura ouvir as pessoas, toca para elas, sente se aceitaram. Se você sente que tem uma música que tem potencial, arrisca ministrar na igreja, faz um arranjo, nem que seja provisório, para ministrar na igreja. Seja ousado nesse sentido, acredite naquilo que você faz, valorize o que Deus te deu.
Eu acho que, se Deus te deu um dom, se ele está te dando canções, é porque ele quer que você faça algo com isso. A gente nunca recebe algo de Deus para ficar retendo, a gente precisa levar isso para as pessoas, porque eu tenho certeza que Deus quer falar com elas. Então sejamos ousados e valorizemos aquilo que Deus tem dado para nós.