Alguém falou em discipulado na igreja, e a frase passou como se todo mundo já soubesse.
Pode ter sido o pastor no púlpito, o líder no grupo do WhatsApp, ou o convite para “começar o seu discipulado”.
Quase ninguém pergunta na hora. Mais tarde, a palavra vai parar na busca do celular.
E o que volta não combina entre si. Uma página diz que é um curso. A seguinte, uma dupla que se encontra na terça. A terceira, a própria célula.
Você não entendeu errado.
Discipulado é caminhar junto com alguém, ensinando essa pessoa a viver o que está aprendendo de Cristo.
Quem convence do pecado, conduz ao arrependimento e sustenta a fé de alguém é o Espírito Santo. Isso nunca esteve na mão de ninguém, e é um alívio que seja assim.
O que está na mão de quem discipula é outra coisa, e é bem concreta: ensinar, dar o exemplo e estar por perto.
O que a Bíblia diz sobre discipulado?
A Bíblia dá a ordem e não dá o manual.
A ordem está em Mateus 28.19-20: fazer discípulos de todas as nações, batizando e ensinando a obedecer. O verbo principal ali é imperativo. Não é conselho.
Só que mathēteuō, o verbo grego para fazer discípulos, aparece 4 vezes no Novo Testamento inteiro. 3 em Mateus, uma delas na Grande Comissão, e uma em Atos 14.21.
4 vezes. É sobre esses 4 versículos que muitas igrejas fizeram do discipulado um ministério.
Discipulado é a base do cristianismo.
O que a Bíblia não diz é como fazer.
Não diz de quanto em quanto tempo. Não diz quantas pessoas por discipulador. Não diz se o encontro é na casa, na igreja ou no café.
O que significa a palavra discípulo?
Discípulo, ao pé da letra, é aprendiz. A palavra grega é mathetes, e ela vem do verbo manthanō, aprender.
“Discipulado” não aparece no texto bíblico. Quem aparece é o discípulo.
Mathetes já era usada séculos antes de Cristo para o aprendiz que andava junto de um mestre, como os alunos de filósofos e de médicos.
O termo aparece 261 vezes no Novo Testamento, em 246 versículos. A contagem varia um pouco conforme o texto grego usado: pelo Textus Receptus são 269.
Manthanō aparece espalhado pelo Novo Testamento, e quase nunca falando de conversão. Os trechos abaixo são da NVI.
- Mateus 9.13, “Vão aprender o que significa isto”
- Mateus 11.29, “aprendam de mim”
- Marcos 13.28, “Aprendam a lição da figueira”
- João 6.45, “os que ouvem o Pai e dele aprendem”
- João 7.15, “sem ter estudado”
- Romanos 16.17, “ao ensino que vocês têm recebido”
- Gálatas 3.2, “Gostaria de saber apenas uma coisa”
- Efésios 4.20, “não foi isso que vocês aprenderam de Cristo”
Repare que 3 delas não dizem aprender.
Em João 7.15 o mesmo verbo virou estudar. Em Romanos 16.17 virou receber. Em Gálatas 3.2 virou saber.
Não é erro de tradução. É o português precisando de 4 palavras onde o grego usa uma só.
Aprender o sentido de um texto que já se sabia de cor. Aprender de uma pessoa. Aprender uma lição da natureza. Aprender um ofício. Receber um ensino. E, em Efésios, aprender o próprio Cristo.
Essa é a família de palavras que o Novo Testamento escolheu. Ela é de sala de aula e de oficina, não de resgate.
Qual é a diferença entre discípulo e discipulador?
Discípulo e discipulador são posições na mesma caminhada, não categorias de pessoa.
Discípulo é quem segue Jesus. Todo cristão é, por definição, e não existe um segundo nível de cristão que dispensa isso.
Discipulador é o discípulo que caminha ao lado de outro. Não é um cargo, não exige diploma e não pressupõe que ele já chegou.
A confusão mais comum na igreja é tratar “discipulador” como um degrau acima. Quando isso acontece, o discipulado vira hierarquia, e quem está sendo discipulado passa a esperar do discipulador respostas que ele não tem.
O filósofo americano Dallas Willard preferia chamar o discípulo de aprendiz. E o que o aprendiz aprende, para ele, não é a fazer o que o mestre faz: é a conduzir a própria vida como o mestre a conduziria.
Em 2015, o Barna Group, instituto americano que estuda igrejas, perguntou a líderes de igreja se eles próprios estavam sendo discipulados.
40% não estavam. Quem não é discipulado por ninguém costuma ser o primeiro a cansar.
Quem discipulou o apóstolo Paulo?
Várias pessoas discipularam Paulo, e é isso que torna a história dele o exemplo mais completo do Novo Testamento.
Jesus discipulou 12 homens por 3 anos, e esse é o modelo que todo mundo conhece. Com Paulo, foram vários discipuladores, em momentos diferentes da vida dele.
Jesus chama Saulo pelo nome e o deixa 3 dias sem enxergar.
Atos 9.3-9
Ananias, um crente comum, é o primeiro a chamá-lo de irmão.
Atos 9.10-17
Barnabé caminha com Paulo num período em que ninguém acreditava nele.
Atos 9.26-28 · Gálatas 1.18
Paulo encontra Timóteo e ensina andando com ele.
Atos 16.1-3
Paulo orienta que Timóteo entregue o que aprendeu a gente capaz de ensinar outros.
2 Timóteo 2.2
Repare em quem sustenta essa história. Um crente de quem se sabe muito pouco, que disse a Deus que tinha medo e obedeceu assim mesmo.
Se discipulado é aprender caminhando junto, então Paulo foi discipulado por muita gente.
E repare no que vem depois.
Em Antioquia, Pedro come com os gentios e depois se afasta deles, com medo do que os outros vão dizer. Quem o enfrenta na frente de todos é Paulo (Gálatas 2.11-14).
No mesmo episódio, Barnabé se deixa levar junto com Pedro.
O homem que abriu a porta para Paulo está do lado errado da mesa, e quem segura a verdade do evangelho é o que chegou por último.
É a coisa mais desconfortável que essa história mostra. Quem é discipulado não fica preso ao tamanho de quem o discipulou.
A Bíblia descreve. Não prescreve.
Por que cada igreja define discipulado de um jeito diferente?
Porque a Bíblia entrega um mandamento e não uma receita. Não existe ali uma definição fechada, e cada igreja preenche esse espaço com a leitura dela.
A própria história de Paulo mostra o tamanho do espaço, porque ela não tem um fim registrado.
Preso em Roma, ele continuava sendo cuidado. Onesíforo o procurou até encontrar e não se envergonhou das correntes dele (2 Timóteo 1.16-17).
Num outro momento, sobrou um só: “Só Lucas está comigo” (2 Timóteo 4.11, NVI).
E continuava discipulando por carta, às vezes com luva de pelica. A Filemom ele escreve que tinha plena liberdade para ordenar, e prefere “fazer um apelo com base no amor” (Filemom 9, NVI).
Ali, discipulado não é etapa que termina. É o jeito de se relacionar até o fim.
Sem uma forma definida, sobra espaço. E cada igreja ocupa esse espaço de um jeito.
Hoje “discipulado” é nome de pelo menos 4 coisas distintas, e várias igrejas usam mais de uma de forma natural, sem planejamento.
-
Discipulado como curso. Uma sequência de aulas ou apostilas que a pessoa faz depois de se converter. O curso acaba, e a pessoa continua.
-
Discipulado como relação um a um. Duas pessoas que se encontram com alguma regularidade, leem juntas, oram juntas e prestam contas.
-
Discipulado como o próprio pequeno grupo. O cuidado acontece na célula, e o líder do grupo é quem discipula.
-
Discipulado como trilho. Uma jornada com etapas nomeadas, em que a pessoa avança de um estágio para o outro.
Nenhuma das 4 é errada. É a leitura da igreja, é a leitura do pastor.
O problema não é a escolha, é a mistura sem nome. Quando o pastor fala pensando no trilho, o supervisor ouve pensando na célula e o líder ouve pensando na dupla, os 3 fazem 3 coisas diferentes na quarta-feira.
E a mistura gera uma percepção errada dentro da igreja: quem acabou de se converter acha que quem lidera já não precisa ser discipulado.
Vale perguntar se as pessoas da sua igreja estão sendo discipuladas de fato, ou se existe um processo no papel que ninguém está vivendo.
A ordem de fazer discípulos é bíblica. O “como fazer” é com cada pastor, de acordo com o que ele entende que funciona melhor para a realidade da sua igreja.
Quer receber o próximo artigo sobre isto?
Só sobre este assunto. Sem proposta comercial, e você sai quando quiser.
Pronto. Você vai receber um aviso quando sair o próximo artigo sobre este assunto. Acabamos de enviar um e-mail confirmando.
Referências
(2015). New Research on the State of Discipleship. Pesquisa encomendada pela NavPress para os Navegadores, Estados Unidos. 615 pastores seniores, 218 pastores de discipulado e 2.013 cristãos adultos, entre março e maio de 2015; margem de erro de 3,1 pontos na amostra de adultos. Ler a pesquisa acesso aberto
Strong's Greek Lexicon, verbetes G3101 (mathetes), G3100 (mathēteuō) e G3129 (manthanō), com o léxico de Thayer e o índice de ocorrências. Contagens conferidas no texto grego MGNT e no Textus Receptus. Abrir o verbete acesso aberto
A conversão de Paulo. Consultado para o intervalo de 3 anos entre a conversão e a subida a Jerusalém, que Atos 9.23 chama de “muitos dias” e que Gálatas 1.17-18 datam. Ler o texto acesso aberto
(2023). O discipulado como forma de ensinar os pressupostos da cosmovisão cristã. Revista Ensaios Teológicos, 9(1), p. 9-25. Faculdade Batista Pioneira. Ler o estudo acesso aberto
(2009). How Does the Disciple Live? Radix, v. 34, n. 3. Publicado no site de Dallas Willard Ministries. Ler o artigo acesso aberto
Este artigo é revisado quando algum dado ou prática citada muda. Quando isso acontecer, a data da revisão aparece ao lado da data de publicação.