Para quem épastores, supervisores e líderes de célula
Alguém chega ao pastor no fim do culto e diz que quer servir no louvor.
Em muita igreja, a resposta é um nome: “procura o Fulano, ele cuida do louvor”.
Em outras, a resposta é uma pergunta: “de que célula você é?”
Provavelmente você sabe qual é a resposta que a sua igreja dá. A pergunta deste artigo é outra: a rotina dela responde a mesma coisa?
A diferença é o lugar que o pequeno grupo ocupa: numa igreja com células ele é um ministério entre outros, e numa igreja em células é por ele que passa a vida da igreja.
Essa definição você provavelmente já leu. O que quase nunca se publica é como conferir se a rotina da sua igreja combina com o nome que ela usa, e é o que vem aqui:
- Treze sinaisObjetivos, para responder nesta semana, sem convocar reunião.
- O que cobrar de cada umaO que dá e o que não dá para esperar dos dois modelos.
Como funciona uma igreja em células na prática?
A célula é a estrutura, e o resto da igreja existe para servi-la. O cuidado de cada pessoa acontece no grupo, o visitante é encaminhado para um grupo, e o líder é formado numa escola com início, meio e fim.
Cada nível de supervisão existe, entre outras atribuições, para cuidar do nível abaixo. É esse cuidado que sustenta o resto, e a multiplicação, que é o objetivo declarado, vem dele.
Joel Comiskey, que estuda igrejas em células há décadas, define as duas em duas frases. O original é em inglês, e a tradução é nossa:
“A igreja com células não se organiza em torno do ministério de células.”
“Na igreja em células, todo mundo é incentivado a estar na célula e no culto de celebração.”
O pastor Lucas Donha, da Igreja Amor e Cuidado, em Araçatuba, contou no nosso podcast que em 2009 a igreja tinha oito ou nove células, e elas eram um ministério.
Por volta de 2012, nas palavras dele, “as células deixaram de ser um ministério e passaram a ser a vida da igreja”.
Esta frase é a síntese do que Joel Comiskey escreve.
A imagem corrente na visão celular é a das duas asas, célula e culto. Nenhuma das duas é opcional. Isso você já sabe. O que talvez ainda não saiba é o desenho por dentro, e ele é fundamental.
Como é a estrutura de uma igreja em células?
São cinco peças, em qualquer tamanho de igreja: o pastor principal à frente da visão, uma supervisão desenhada para cuidar de quem cuida, uma escola com início e fim, uma reunião com fluxo conhecido, e um relatório que mostra o que a visita não alcança.
O organograma muda com o tamanho. As peças, não.
É o detentor da visão. É quem inflama o coração da igreja para que cada crente seja um discípulo, e não apenas “esquente banco de igreja”.
Por isso, o mais comum é ele liderar um grupo, e, quando não lidera, ser participante assíduo de um.
Existe para que o cuidado chegue a todos os níveis, e não só para recolher relatório.
Numa igreja em células que está começando costuma haver um nível. Numa igreja que já passou por ciclos de multiplicação, dois ou três. Nas consolidadas, os níveis variam muito, e podem passar de sete.
Geralmente é dividido em fases, com início, meio e fim. Cada fase acompanha a maturidade da pessoa, a visão e a doutrina da igreja.
A escola nunca para, mas cada curso termina.
Segue um fluxo definido pela igreja, que se resume a lanche, quebra-gelo, louvor, estudo e oração. Sempre varia de igreja para igreja.
O que não muda é o alvo: ganhar vidas para Cristo, e todo mundo na sala sabe disso.
Numa igreja em células, o relatório da célula é tão importante quanto o cuidado, o discipulado e a consolidação. É a única forma de o pastor enxergar o que acontece.
O que o relatório não mostra é a qualidade da reunião. Para isso existe a visita de supervisão.
O pastor Ricardo Capler, da Igreja Batista Betesda, contou no nosso podcast como foi na igreja dele. Ela tinha por volta de trinta grupos em 2011, e sabia o que queria ser. O que faltava era estrutura: não havia supervisão, não havia trilho de formação de líderes. A virada, para ele, foi de 2011 para 2012, quando a estrutura chegou.
Os nomes mudam de igreja para igreja. As cinco peças, não.
Como saber se a sua igreja funciona como igreja em células?
Não pelo organograma, mas sim pela prática da igreja. E há itens claros que podem ser observados.
Treze sinais, e eles não esgotam o assunto: o que separa uma igreja em células de uma igreja com células não cabe em treze perguntas. Escolhemos estes por serem objetivos, e dá para responder a todos nesta semana, sem convocar reunião.
Em cada um, a primeira frase descreve como funciona numa igreja em células, e a pergunta é se é assim na sua.
O pequeno grupo existe para evangelizar, e a multiplicação é a consequência.
Quando você pergunta a um líder qual é o objetivo da célula dele, ele responde evangelizar ou multiplicar?
Quem é acolhido nos cultos é encaminhado para um pequeno grupo.
O visitante do domingo sai sabendo que um líder vai procurá-lo durante a semana?
O grupo é a porta de entrada para os demais ministérios da igreja.
Quando alguém pede para servir, para se casar ou para ser aconselhado, a primeira coisa que perguntam é de que célula ele participa?
A ausência é notada dentro do grupo, onde as pessoas se conhecem pelo nome.
Quando alguém começa a faltar aos cultos, quem percebe primeiro é o líder da célula dessa pessoa?
Todo mundo na sala tem liberdade para falar, tirar dúvidas e discordar. Muitas vezes o líder apenas conduz pelo roteiro da semana.
Nas células que você visitou este ano, os participantes falavam, perguntavam e discordavam, em vez de só escutar o líder?
O roteiro da semana é escrito pela igreja, distribuído com antecedência, e conversa com o que se prega no culto de domingo.
Se você perguntar a três líderes o que vão ministrar na próxima reunião, os três respondem a mesma coisa?
Ele lidera um grupo, e quando não lidera, participa de um de forma assídua.
O seu pastor sênior lidera ou participa de um pequeno grupo?
A equipe pastoral inteira sustenta os grupos, em vez de uma pessoa cuidar das células enquanto as outras cuidam de outras áreas.
Além do pastor sênior, os outros pastores da sua igreja lideram ou supervisionam célula?
Cada nível de supervisão cuida dos líderes do nível abaixo, e ninguém fica sem apoio.
Se você perguntar a um supervisor quem o acompanha, ele sabe responder?
Quase todos os cursos têm início, meio e fim, e como avançar é claro e divulgado para todos.
As pessoas da igreja conhecem com clareza como funcionam os cursos e como avançar?
A programação é sempre pensada para não conflitar com as reuniões dos pequenos grupos.
Ao definir os eventos da igreja, existe o cuidado de não atrapalhar as células?
O relatório mostra o que a visita não alcança, e é por ele que o pastor enxerga cem grupos que não consegue visitar.
Você consegue dizer, pelos relatórios, quais grupos estão sem visita da supervisão há mais de um mês?
A maior parte dos grupos novos nasce de dentro de uma célula, pela multiplicação ou pelo envio de um líder formado ali.
No último ano, a maior parte das células novas nasceu de pessoas que já estavam num pequeno grupo?
O que vem abaixo é uma tendência, não um veredito. Nenhum dos dois modelos é o certo, e escolher ter células como um ministério é uma decisão legítima, tomada por gente que conhece a própria igreja.
A pergunta que vale é outra: o resultado bate com a visão que você tem para a sua igreja? Se você a chama de igreja em células e as respostas apontam para o outro lado, é aí que tem algo para rever. E vale ao contrário também.
Uma igreja com células precisa virar igreja em células?
Não. Há igrejas que escolhem ter células como um ministério, e é uma escolha legítima, tomada por gente que conhece a própria igreja. O que não dá é esperar de um ministério o que só uma estrutura entrega, e cobrar do líder uma multiplicação que ninguém desenhou.
A célula que faz parte de um ministério deve cumprir o que a visão daquele ministério pede dela. Quem define o que se cobra é o líder do ministério, e mais ninguém.
Numa igreja em células, a célula é por onde corre a vida da igreja, e a necessidade não é apenas evangelizar e cuidar das pessoas. É na célula que se forma o próximo líder, e assim nasce o próximo grupo.
O pastor Samyr Trad, da Igreja Batista Central de Belo Horizonte, disse no nosso podcast que a célula é o ambiente primeiro e principal da formação de líderes:
“O líder de célula deve ter como seu alvo maior não apenas multiplicar a sua célula, mas multiplicar-se, a si mesmo, em outra pessoa.”
A multiplicação não é o fim da linha, é um ciclo natural.
O que fazer agora
O passo seguinte é o mesmo para pastor, supervisor e líder, e ninguém pode dá-lo por você. Reflita no que você sentiu ao ler este texto, e leve diante de Deus.
Reflita se a visão que Deus deu a você é o que está acontecendo na prática.
Se não for, é em direção a ela que a sua igreja precisa caminhar, e o próximo passo você recebe de quem deu a visão.
Reflita no que você tem passado aos seus líderes: é a visão da sua igreja, ou o que você entendeu dela?
Se elas são incoerentes, quem sente primeiro são os líderes, e talvez seja isso que você tenha que levar diante de Deus.
Reflita se o que você acredita é o que você vive naquele grupo.
Quando os dois seguem em conflito, a pergunta deixa de ser sobre o modelo da sua igreja e passa a ser outra: é nesta comunidade que você deve exercer o seu ministério? A resposta não depende de ela ser em células ou com células, e vem de quem chamou você.
Célula como programa cabe na agenda. Célula como estrutura muda a vida da igreja.
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Referências
(2024). A Church with Cells and a Cell Church. Trecho de Reap the Harvest, publicado no site do Joel Comiskey Group em 9 de junho de 2024. Ler o texto acesso aberto
(2018). O treinamento do líder de célula. Podcast célula.in. Ouvir o episódio acesso aberto
Criar app para igreja é a melhor opção? Podcast célula.in. Ouvir o episódio acesso aberto
Multiplicação de rede de jovens. Podcast célula.in. Ouvir o episódio acesso aberto
Este artigo é revisado quando algum dado ou prática citada muda. Quando isso acontecer, a data da revisão aparece ao lado da data de publicação.